Material tem caráter orientativo e busca esclarecer dúvidas sobre a aplicação das normas, especialmente no contexto do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO)
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Quando o medo dos agentes de IA paralisa a gestão da mudança dentro das empresas
A notícia de uma suposta rede social para agentes de IA gerou um sentimento que, não raras vezes, aparece dentro do cenário corporativo em que líderes encaram o desafio
Nos últimos dias, você deve ter ficado sabendo do novo espaço ocupado pelos agentes de IA. Eles já estão no trabalho, dentro de diferentes empresas, facilitando nossa vida em casa, e, agora, estariam também nas redes sociais assim, sozinhos, sem mediação humana.
Não sei como você se sentiu diante dessa notícia, mas teve muita gente preocupada com o que poderia ser o começo de uma “revolução das máquinas”. E isso não é exatamente uma surpresa.
Afinal, vira e mexe, quando surge uma notícia sobre inteligência artificial, a curiosidade com relação à novidade vem acompanhada de medo. Volta a discussão sobre perda de emprego e aparecem novas inseguranças, como a ideia de que agentes conectados em rede sem supervisão poderiam tomar decisões perigosas, cometer erros em grande escala e comprometer a segurança de dados sensíveis.
Para quem pensou em tudo isso ao ouvir falar dessa cena de filme de ficção, o sentimento agora deve ser de alívio. É que, segundo um artigo publicado pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), a rede social Moltbook teria, na verdade, o envolvimento de humanos por trás das postagens. Ou seja, o cenário em que agentes autônomos interagem online por conta própria ainda não é exatamente uma realidade.
Porém, o sentimento que essa história provocou é, sim, muito real. E, quando nos domina, pode reduzir nossa capacidade de ação e decisão estratégica.
O futuro paralisante
Vez ou outra, percebo que as notícias sobre inovação, especialmente essas relacionadas a agentes de IA, provocam um tipo de lentidão.
Não se trata de uma inércia. O que acontece, na verdade, é que, em vez de ficar no lugar, há uma reação, só que uma reação quase automática e um tanto quanto tímida.
A empresa até dá alguns passos, discute sobre a transformação do momento, entra nos debates sobre o futuro do trabalho e pode chegar inclusive a adotar alguma ferramenta, mas, muitas vezes, para por aí. Ou seja, existe uma movimentação, mas falta avançar com intencionalidade no processo de transformação estrutural.
Afinal, adotar esses colegas de trabalho sintéticos não significa apenas modificar a produtividade ou a divisão de tarefas: essa nova configuração mexe, inevitavelmente, na cultura organizacional.
Não que os valores devam mudar, mas é natural (e mais do que isso, inevitável) que os hábitos, as práticas e as expectativas sobre autonomia, responsabilidade, risco, produtividade e tomada de decisão evoluam junto com a tecnologia. Quando agentes passam a executar parte das tarefas, o que se espera de uma pessoa, de uma área, dos processos, da estrutura organizacional e, por consequência, do próprio modelo de negócio, muda.
Há (ou deveria haver) uma mudança que vai muito além de rever critérios de avaliação ou novos parâmetros de produtividade. Estou falando de uma transformação na lógica como o trabalho é dividido, na capacidade de adaptação das pessoas aos seus novos parceiros de jornada, na redistribuição de responsabilidades, no ritmo das decisões, no grau de supervisão necessário, na relação com o erro e no perfil das competências estratégicas.
Envolve também repensar como a organização cria valor, como coordena equipes híbridas (humanas e digitais), como estabelece vínculos de confiança e como garante governança quando decisões passam a ser parcialmente automatizadas. Praticamente todos os processo e práticas corporativas precisarão ser redesenhados e introduzidos novamente.
Isso tudo requer uma gestão da mudança que vá além da implementação operacional de ferramentas. Exige redesenho organizacional, revisão de fluxos críticos, adaptação dos modelos de liderança, enfim, de uma visão ampla sobre tudo o que precisa ser ajustado.
A decisão de conduzir a mudança
Eu sei, é muita coisa. A lista de urgências da liderança parece não ter fim e a velocidade com que ela aumenta dá certa angústia.
Porém, mesmo entendendo completamente o sentimento, preciso alertar que, ao adotar agentes de IA, sua organização vai mudar de um jeito ou de outro. É natural que isso aconteça e é importante não só que prioridades estratégicas sejam revisitadas, bem como decisões estruturais sejam tomadas de forma consciente. Estou me referindo a uma postura de encarar essa realidade com atitude em vez de deixar tudo para depois.
O que está ao nosso alcance é fazer a gestão desse processo.
Até porque ignorar a transformação não impede que ela aconteça, apenas transfere o controle para fatores externos: para a concorrência que avança mais rápido, para o mercado que redefine padrões ou para crises que obrigam transformações no susto e na correria.
Por isso, a gestão de mudança requer compromisso e disciplina para debater não uma vez, mas constantemente questões como:
- Em quais áreas e atividades os agentes realmente agregam valor, e em quais representam mais risco do que ganho;
- Quais processos precisam ser redesenhados para que a tecnologia escale com segurança, sem gerar gargalos ou erros em cadeia;
- O quanto as pessoas conseguem atuar com seus agentes de forma eficiente;
- Que decisões podem ser parcialmente automatizadas e quais devem permanecer sob responsabilidade humana;
- Como garantir governança, rastreabilidade e accountability quando agentes passam a lidar com dados sensíveis;
- Quais competências deixam de ser centrais e quais passam a ser estratégicas para o negócio;
- Como preparar lideranças para gerir equipes híbridas, nas quais performance envolve pessoas e sistemas;
- De que forma a cultura organizacional precisa evoluir para lidar com experimentação, erro controlado e aprendizado contínuo.
Se, assim como a polêmica das redes sociais para IA, essa gestão da mudança está causando algum medo, minha mensagem para você é que o frio na barriga faz parte. É normal sentir insegurança diante do desconhecido e questionar o impacto de decisões que mexem com pessoas, estruturas e resultados.
E, verdade seja dita, somos plenamente capazes de agir mesmo com um leve arrepio percorrendo o corpo. Afinal, coragem, no ambiente corporativo, não é ausência de medo. É capacidade de decidir apesar dele.
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